A Renault oficializou na Europa a nova geração do Dacia Spring, e a notícia diz mais sobre o mercado brasileiro do que parece. Até agora o Spring era o nosso Kwid elétrico com outro emblema, importado da China. A partir desta geração ele é outro carro: nasce na Eslovênia, ficou 15 cm maior, ganhou motor mais forte e subiu de preço. O Kwid elétrico que a gente compra 0km por R$ 99.990 é, na prática, a geração que a Europa está aposentando.
O sucessor europeu, que não vem para cá

A nova geração sai da China e passa a ser feita na Eslovênia, ao lado do Renault Twingo E-Tech, movimento que a Dacia adotou para fugir da tarifa de importação europeia. O preço confirmado fica abaixo de 20 mil euros, algo como R$ 120 mil em conversão direta. O detalhe que interessa: a geração anterior partia de 13.990 euros. O elétrico de entrada da marca subiu de faixa, não desceu.
Ficha do carro novo: 3,85 metros de comprimento (15 cm a mais que o antecessor), quatro lugares, porta-malas de 337 litros que vira 1.283 litros com o banco rebatido e um porta-malas dianteiro de 18 litros só para os cabos. O motor elétrico entrega 82 cv e 17,8 kgfm, vai de 0 a 100 km/h em 12,1 segundos e para de acelerar nos 130 km/h, com 1.212 kg na balança. A bateria é de LFP de 27,5 kWh, boa para 250 km no ciclo WLTP, e recarrega de 15% a 80% em 28 minutos num carregador rápido de 50 kW ou em 2h55 numa parede de 7 kW. O painel é de plástico rígido, com quadro digital de 7 polegadas e multimídia de 10,1 polegadas na topo Journey, além de um botão My Safety que liga e desliga os assistentes de uma vez.
Segundo a Autoesporte, o Spring antigo segue à venda na Europa por um período de transição, justamente como a opção mais barata. Nada disso está previsto para o Brasil: aqui o carro continua sendo o Kwid.
O Kwid elétrico que o Brasil vende hoje

O Kwid elétrico chegou em abril de 2022 a R$ 142.990, importado da China. Hoje a linha 2026 vem em versão única, a Techno, por R$ 99.990, e segue como o carro elétrico mais barato do país.
São 65 cv, bateria de 26,8 kWh e 180 km de autonomia no PBEV/Inmetro, número pensado para rodar na cidade e dormir na tomada. A recarga de 20% a 80% leva 9 horas numa tomada doméstica, 3 horas num wallbox de 7 kW ou 45 minutos num carregador rápido de 30 kW. A linha 2026 trouxe 11 assistentes de condução, painel de 7 polegadas e multimídia de 10 polegadas.
Comparar os dois lado a lado ajuda a entender o preço: 65 cv contra 82 cv, 180 km contra 250 km, bateria de 26,8 kWh contra 27,5 kWh. O europeu é mais carro, e custaria mais caro aqui também.
O que a Fipe cobra por cada ano
| Ano | Versão | Fipe (set/2026) |
|---|---|---|
| 2023 | Kwid Intense elétrico | R$ 60.269 |
| 2024 | Kwid Intense elétrico | R$ 73.562 |
| 2025 | Kwid E-Tech Techno | R$ 81.029 |
| 2026 | Kwid E-Tech Techno | R$ 85.317 |
Com o 0km em R$ 99.990, a conta fica clara. O mesmo carro com um ano de uso está em R$ 85.317, ou R$ 14.673 abaixo do zero. O de 2023 está em R$ 60.269, R$ 39.721 abaixo do 0km de hoje e R$ 82.721 abaixo do que ele custava novo em 2022.
Onde isso deixa quem está comprando
O degrau que rende é o mais antigo da escada. Um 2025 por R$ 81.029 ou um 2026 por R$ 85.317 ficam perto demais do 0km de R$ 99.990, que vem com garantia cheia e a bateria ainda intacta. Já o Kwid elétrico de 2023 por R$ 60.269 é outra conversa: mesmo tamanho, mesma proposta de carro de cidade, com R$ 39.721 a menos no cheque.
Em elétrico usado a checagem que decide a compra é a saúde da bateria, não o hodômetro. Peça o relatório de capacidade, rode o carro com a bateria abaixo da metade e veja quanto de autonomia o painel promete de verdade.
Entre os rivais, o BYD Dolphin Mini de 2024 está em R$ 100.207 na Fipe, com bateria LFP de 38 kWh e 280 km pelo Inmetro. São R$ 26.645 a mais que o Kwid de 2024 por cerca de 100 km de folga, o que faz sentido para quem sai da cidade com alguma frequência. O Geely EX2 com R$ 116 mil na venda direta joga no mesmo tabuleiro e pressiona esses valores por baixo. E vale lembrar que R$ 99.990 também compram um Renault Kardian 0km a combustão, o que explica por que o elétrico de entrada fecha melhor a conta no usado.
Resumo da história
A Europa está trocando esse carro por um sucessor maior, mais potente e mais caro. O Brasil continua com a geração anterior, que é boa no que se propõe e já passou pela parte feia da desvalorização. Quem quer um elétrico urbano gastando o mínimo possível encontra o ponto certo da curva no usado de 2023 e 2024, e não no 0km nem no seminovo de um ano.


