Caroline Bassani comprou um JAC e-JS1 em março. Pela contagem dela, já são 188 dias desde o primeiro contato com a montadora, e o carro nunca foi entregue. João Paulo Araújo, de Curitiba, fechou negócio em maio, também não recebeu o elétrico e conta que pagou a primeira, a segunda e a terceira parcela do financiamento de um carro que nunca chegou à garagem dele.
Os relatos foram reunidos pela Autoesporte e não são casos isolados. Compradores em Dourados (MS) e em Juazeiro do Norte (CE) descrevem a mesma sequência: compraram, financiaram e seguem esperando.
O que é o JAC e-JS1

O e-JS1 é o elétrico de entrada da JAC no Brasil. É um hatch pequeno, de 62 cavalos, feito para uso urbano, e hoje é o único carro de passeio que a marca ainda anuncia por aqui, já na linha 2027. Em 2026, foram 122 unidades emplacadas no país inteiro.
O que os clientes contam
O ponto que mais se repete nos relatos é uma promessa feita na hora do atraso. Segundo os compradores, a concessionária ofereceu pagar as parcelas do financiamento enquanto o carro não chegasse. Nenhum dos quatro clientes ouvidos diz ter recebido esse pagamento.
João Paulo conta que foi informado de que havia "alta demanda de pagamentos" e que seria reembolsado depois. Pagou três parcelas com juros e diz que ninguém procurou ele para acertar. Dimaymilli Santos, de Dourados, motorista de aplicativo, recebeu a explicação de um problema na importação ao fim de 45 dias, pediu o cancelamento, ouviu a mesma contraproposta e hoje diz que a loja não responde enquanto o banco liga cobrando um acordo por um carro que ela nunca viu.
Vale registrar quem sente mais esse tipo de atraso: quem depende do carro para trabalhar e já está pagando por ele. A parcela vence do mesmo jeito, e o transporte para rodar tem que sair de outro lugar.
Caroline, de Porto Alegre, diz que recebeu várias datas novas e nenhuma cumprida, incluindo a informação de que o carro estaria no Espírito Santo, onde acontece o desembarque. Daila Sobral, de Juazeiro do Norte, relata que tentou formalizar a reclamação e descobriu que o e-mail informado pela fabricante volta, porque não existe.
A Autoesporte procurou a JAC Motors e, até a publicação, não teve resposta.
O que a lei garante quando o carro não chega
O advogado Dori Boucault, especialista em direito do consumidor ouvido pela reportagem, aponta o artigo 35 do Código de Defesa do Consumidor, que trata do descumprimento de uma oferta. Na prática, quem pagou e não recebeu pode escolher entre três caminhos:
- exigir a entrega imediata do carro;
- aceitar outro produto equivalente;
- cancelar a compra e receber de volta tudo o que pagou, com correção.
Se o caso for para a Justiça, ainda cabe pedir indenização por perdas e danos. O caminho recomendado antes disso é registrar a reclamação nos canais oficiais da empresa e, sem resposta, acionar Procon e Consumidor.gov, do Ministério da Justiça.
Tem um detalhe importante sobre o financiamento. Segundo Boucault, quando o banco foi indicado pela própria montadora existe responsabilidade solidária, e o consumidor pode pedir na Justiça a suspensão da cobrança de um bem que não recebeu. Ou seja: continuar pagando não é a única saída.
Como a JAC chegou a três lojas
O atraso não apareceu do nada. Em agosto, a JAC tirou dois dos três carros de passeio de linha e fechou concessionárias: o sedã E-J7 e o SUV E-JS4 saíram, e das cinco lojas listadas restaram três, em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre. A marca que um dia inaugurou 50 pontos de venda em um único dia ficou com três.
A JAC informou que vem desenvolvendo um modelo de vendas online e a distância, e que está se reposicionando para focar em picapes, a diesel e elétricas. A rede de assistência é maior que a de vendas: são 142 oficinas credenciadas espalhadas pelo país.
Quando uma marca encolhe, o efeito não fica só na loja nova. Ele chega ao usado, como já aconteceu com o Onix quando a Chevrolet perdeu volume de vendas.
O mesmo e-JS1, na tabela Fipe
Aqui está a parte que a notícia do atraso não conta. Cruzamos o e-JS1 com a tabela Fipe de setembro de 2026 e a distância entre o zero quilômetro e o usado é grande.
| Ano-modelo | Fipe setembro/2026 | Diferença para o zero quilômetro |
|---|---|---|
| Zero quilômetro | R$ 126.400 | referência |
| 2027 | R$ 105.891 | R$ 20.509 a menos (16,2%) |
| 2026 | R$ 100.010 | R$ 26.390 a menos (20,9%) |
| 2025 | R$ 85.460 | R$ 40.940 a menos (32,4%) |
| 2024 | R$ 82.945 | R$ 43.455 a menos (34,4%) |
| 2023 | R$ 75.310 | R$ 51.090 a menos (40,4%) |
| 2022 | R$ 72.120 | R$ 54.280 a menos (42,9%) |
Dois detalhes saltam da tabela. O primeiro é o degrau inicial: sair do zero quilômetro para um 2025 tira R$ 40.940, quase um terço do valor, em dois anos-modelo. O segundo é que a curva depois amansa. Entre o 2025 e o 2024 a diferença é de R$ 2.515, e entre o 2023 e o 2022, de R$ 3.190. A desvalorização pesada acontece cedo e quem compra usado não paga por ela.
Para comparar, um zero quilômetro que passa o ano na loja também perde valor de tabela, só que por outro motivo: o ano de fabricação. Aqui é a marca que pesa.
Na tabela, o e-JS1 usado entre 2022 e 2025 vai de R$ 72.120 a R$ 85.460.
O que olhar antes de comprar um e-JS1 usado
Se a conta te interessa, vale entrar nela com os olhos abertos:
- Bateria. É a peça mais cara do carro. Peça o histórico de recargas rápidas, teste a autonomia real num trajeto conhecido e confira se a garantia de bateria ainda está valendo e se ela é transferível.
- Assistência. São 142 oficinas credenciadas no país. Confira qual é a mais perto de você antes de fechar, não depois.
- Peças. Pergunte ao vendedor e à oficina credenciada qual é o prazo médio para itens de reposição comuns, como para-choque, farol e componentes de suspensão.
- Documentação. Confira multas, restrição financeira e se o veículo está em nome de quem está vendendo.
E uma observação honesta sobre preço: o desconto do e-JS1 usado é grande porque o risco de marca está no preço. Isso não torna o carro ruim, torna a escolha uma decisão que você faz sabendo o que está comprando.
No fim das contas
O que está acontecendo com esses compradores é um problema de entrega e de contrato, não de carro. Para quem está esperando, o caminho passa por Procon, Consumidor.gov e, se precisar, pela suspensão da cobrança. Para quem está apenas olhando o mercado, a lição é mais simples: um carro usado tem uma vantagem que nenhuma promessa cobre, ele já existe e está com alguém.
Quando encontrar o seu, combine tudo pessoalmente e desconfie de quem pede sinal antes de você ver o carro. E se ainda não apareceu o certo, deixe a hoov procurar por você: é só salvar a busca e ativar o alerta, que a gente avisa quando um anúncio entrar nos seus critérios. Qual vai ser a sua primeira busca?


