Duas montadoras usaram a mesma solução de engenharia, bateram no mesmo problema e escolheram caminhos opostos. Uma reforçou a peça e seguiu vendendo. A outra pediu desculpas em público e aposentou o motor. Para quem compra carro usado no Brasil, a diferença entre essas duas decisões vale mais que a notícia em si.

O que aconteceu
No Salão de Paris, o CEO global da Stellantis, Antonio Filosa, pediu desculpas aos clientes pelas falhas da família de motores 1.2 PureTech. "Antes de mais nada, peço desculpas pelas dificuldades que encontraram no passado. Garanto que investimos na melhoria da qualidade", disse, conforme a Autoesporte.
O PureTech é herança do antigo Grupo PSA, dono de Peugeot e Citroën, que se fundiu à Fiat-Chrysler em 2021 para formar a Stellantis. O motor usa correia dentada banhada a óleo, uma solução pensada para reduzir ruído e atrito.
O problema é o que acontece com o tempo. Com o óleo contaminado, a borracha da correia resseca e começa a esfarelar. Os resíduos entopem os dutos de óleo, o filtro de admissão e componentes como a bomba de vácuo do freio. No limite, o fluxo de óleo pelo motor para, e isso pode matar o motor.
A Stellantis e a fornecedora Continental tentaram aplicar uma laca de proteção na correia, mas o óleo continuou penetrando pelas laterais, segundo a Quatro Rodas. A saída foi adotar um componente mais reforçado e encurtar drasticamente o intervalo de manutenção: a troca, antes recomendada a cada seis anos ou 240 mil km, caiu para três anos ou 60 mil km. O serviço exige desmontar parte do motor e custa cerca de 800 euros, perto de R$ 4.880 na conversão atual.
Na Europa, a empresa ampliou a garantia dos carros afetados para dez anos ou 175 mil km e criou uma plataforma para reembolsar quem pagou o conserto na rede oficial. Os modelos atingidos por lá são Peugeot 208, 2008, 3008, 4008 e 5008, Citroën C3, C3 Aircross, C4 e C5 Aircross, e Opel Corsa, Astra, Mokka e Grandland.
A decisão final foi mais dura que o reparo: em vez de atualizar o motor, a Stellantis vai tirá-lo de linha e substituí-lo pelo Firefly, que usa corrente de comando metálica em vez de correia. O nome PureTech foi abolido globalmente. Desde 2022, os novos projetos do 1.2 já adotam corrente.
O caso brasileiro é menor do que parece
Aqui vem a parte que muda a conversa para o comprador brasileiro. Esse motor quase não circulou no Brasil.
Segundo a Quatro Rodas, o único carro vendido no país com essa mecânica foi o antigo Peugeot 208 com o 1.2 de três cilindros e 90 cavalos. E, ao contrário da Europa, a Peugeot adotou aqui desde o início um plano de manutenção mais rigoroso, exigindo a troca da correia a cada 80 mil km, o que preveniu as quebras crônicas. O 208 já não usa esse motor: a geração atual trabalha com o 1.0 turbo de origem Fiat.
Na Fipe de outubro de 2026, esse 208 de motor 1.2 está assim: o Active 1.2 manual de 2017 em R$ 40.994, o mesmo Active de 2020 em R$ 45.248 e o Allure 1.2 de 2020 em R$ 57.435. São carros de faixa acessível e, com o histórico de troca de correia em dia, não são uma armadilha. Anúncios de Peugeot 208 de 2016 a 2020 cobrem o período em que o 1.2 foi vendido.
Importante: a família Firefly, que a Stellantis vai usar como substituta, já roda no Brasil há anos, nas versões 1.0 flex de três cilindros, com 75 cavalos e 10,7 kgfm, e 1.3 flex de quatro cilindros, com 107 cavalos e 13,7 kgfm, equipando Mobi, Argo, Cronos e Strada. Esses motores usam corrente e ficaram fora da crise.
A GM escolheu o caminho oposto
A correia banhada a óleo não é exclusividade francesa. Os motores três cilindros 1.0 turbo e 1.2 turbo da Chevrolet também usam a solução, e equipam Onix, Onix Plus, Tracker, Montana e Sonic.
A diferença está na resposta. A Autoesporte registra que a GM chegou a trocar os fornecedores dos conjuntos desses modelos. A Quatro Rodas acrescenta que a marca substituiu o componente original por um reforçado e ampliou a garantia, atribuindo as falhas ao uso de lubrificante incorreto fora da rede de concessionárias. Ou seja: a GM manteve a arquitetura e atacou a peça e o óleo. A Stellantis desistiu da arquitetura.
Para quem está comprando, isso não significa que um caminho é seguro e o outro não. Significa que, no caso da Chevrolet, o carro continua em produção e a manutenção correta é o que separa um motor saudável de um problema caro. O Onix Plus 2027 custa R$ 103 mil e o usado começa perto de R$ 55 mil, e nessa faixa o histórico de manutenção vale mais que o ano no documento.
Valores da Fipe de outubro de 2026 para o Onix hatch LT 1.0 turbo automático: R$ 63.306 no 2020, R$ 69.764 no 2022 e R$ 80.053 no 2024. Anúncios de Onix de 2020 a 2024 concentram as unidades com o motor turbo.
O que pedir antes de comprar um carro com correia no óleo
Esta é a parte prática, e ela é curta porque a lista é simples:
- Notas de troca de óleo, com o óleo certo. É o item número um. A degradação da correia acelera com lubrificante fora da especificação do manual. Peça as notas e confira se o produto usado era o indicado pela fabricante.
- Intervalo de troca de óleo respeitado. No caso dos motores da Chevrolet, a recomendação é troca a cada 10 mil km.
- Registro da troca da correia, quando já vencida. Se o carro passou do prazo previsto no manual e não há nota, você está comprando um serviço caro que ainda não foi feito. Coloque isso no preço.
- Luz de pressão de óleo e partida a frio. Ligue o carro frio, com você presente desde o início. Ouça o ruído nos primeiros segundos e observe se a luz de óleo apaga rápido.
- Pergunte onde o carro era revisado. Rede de concessionária deixa rastro. Em motor com esse histórico, rastro é valor.
No fim
Um pedido de desculpas de CEO não troca a correia de ninguém. O que ele indica é algo mais útil: a indústria está recuando de uma solução que exigia disciplina demais do dono para funcionar. Para quem compra usado hoje, a leitura é direta. O motor com correia no óleo não é proibido, é condicional. Com nota de óleo na especificação correta e intervalo respeitado, ele roda. Sem isso, você está comprando um risco que não aparece na vistoria.
E, como quase sempre no usado, o que decide não é a marca na grade: é a pasta de documentos que o vendedor te mostra. Quando achar o carro certo, deixa o alerta ligado aqui na hoov para não perder a unidade bem cuidada quando ela aparecer.


