O governo federal subiu de R$ 150 mil para R$ 200 mil o valor máximo da nota fiscal que pode ser financiada pelo Move Brasil, a linha de crédito para taxistas e motoristas de aplicativo. A portaria conjunta dos ministérios do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e da Fazenda saiu em edição extraordinária do Diário Oficial da União. Com o teto novo, o governo estima que a cobertura do programa passe de 63% para 88% dos modelos disponíveis no mercado.
Os 17 carros que entram com o teto novo

A Autoesporte levantou os modelos que passam a caber na regra. A decisão de participar continua sendo de cada montadora, então a lista abaixo é de candidatos, não de vendas já garantidas. Os preços são os de tabela cheia:
- BYD King GL: R$ 172.990
- BYD King GS: R$ 175.990
- BYD Song Pro GL: R$ 189.990
- BYD Song Pro GS: R$ 199.990
- BYD Dolphin Plus: R$ 184.800
- BYD Yuan Pro: R$ 182.990
- GAC GS4 Hybrid: R$ 191.990
- GAC Aion ES: R$ 170.990
- GAC Aion Y: R$ 175.990
- Geely EX5 EM-i: R$ 189.990
- GWM Ora 5: R$ 163.990
- GWM Haval H6 HEV One: R$ 199.990
- Jaecoo 7 Elite: R$ 189.990
- Leapmotor B10: R$ 182.990
- Omoda 5 SHS-S Luxury: R$ 164.990
- Omoda 5 SHS-S Prestige: R$ 184.990
- Volkswagen Taos Comfortline: R$ 199.990
Conte de novo: são 16 chineses e um alemão. O Taos é o único modelo de marca tradicional na lista, e entra na faixa mais alta, empatado com o Haval H6 e o Song Pro em R$ 199.990. Todo o resto é elétrico ou híbrido de marca chinesa. A portaria também ampliou a lista de híbridos aceitos, incluindo os que combinam motor elétrico com motor a álcool, a gasolina ou flex.
Por que o governo mexeu no teto
Porque o dinheiro não estava saindo. Dos R$ 30 bilhões previstos para o Move Brasil, apenas R$ 3,44 bilhões foram liberados até agora, o que dá 11,3% do total projetado e cerca de 33,4 mil profissionais atendidos. O secretário-executivo da Fazenda, Dario Durigan, foi direto sobre o assunto: "Estamos sempre em contato para entender por que, mesmo com a garantia do governo, não tem tido a adesão que a gente inicialmente esperava".
Subir o teto é a tentativa de destravar isso oferecendo carro maior. Antes de R$ 150 mil, o motorista escolhia entre hatches e SUVs compactos. Agora cabem SUVs médios, que é onde estão os modelos híbridos e elétricos que gastam menos por quilômetro rodado, justamente o que interessa a quem roda 200 km por dia.
Quem pode comprar e por quanto
As regras de entrada não mudaram. O motorista de aplicativo precisa de cadastro ativo há pelo menos 12 meses e 100 corridas feitas na mesma plataforma. Taxistas precisam estar registrados e em atividade. Depois disso, ainda passa pela análise de crédito do banco, com exigência de renda compatível com o valor do carro.
Os juros são definidos pelo Conselho Monetário Nacional: 0,99% ao mês para homens e 0,91% ao mês para mulheres, em até 72 meses, com carência de seis meses para a primeira parcela. O ministro Márcio Elias Rosa comparou com o que o motorista paga hoje para alugar carro: "Quem eventualmente financiar R$ 100 mil para comprar um carro desse valor, hoje, paga em torno de R$ 4.200 por mês pela locação de um veículo de até R$ 100 mil. Financiando em até 72 meses, a parcela ficará em R$ 2.500".
O efeito colateral que aparece no usado
Aqui entra a parte que interessa a quem não dirige por aplicativo. O programa não é uma promoção de preço genérica, é um desconto direcionado, e ele já está em vigor há meses nos modelos mais baratos. Nos preços divulgados pelo programa em junho de 2026, um Fiat Pulse Drive 1.3 automático de tabela cheia a R$ 115.990 saía por R$ 86.296 para taxista. Um Jeep Compass Sport de R$ 174.990 saía por R$ 120.430. Um Renault Kwid Zen de R$ 82.790 ia para R$ 60.604.
Agora compare com o que a Tabela Fipe de agosto de 2026 pede pelos mesmos carros usados:
- Fiat Pulse Drive 1.3 automático 2023: R$ 87.576 de usado, contra R$ 86.296 do 0 km de taxista. O carro novo sai R$ 1.280 mais barato que o de três anos.
- Jeep Compass Sport 2023: R$ 114.669 de usado, contra R$ 120.430 do 0 km. A diferença despenca para R$ 5.761, ou 5%.
- Renault Kwid Zen 2025: R$ 56.783 de usado, contra R$ 60.604 do 0 km. R$ 3.821 separam um carro de um ano de um carro de zero.
É esse tipo de conta que vem achatando o preço do seminovo. Quando o 0 km chega perto do usado de um a três anos, o carro de pouca idade perde a única vantagem que tinha, que era custar bem menos. Não é um fenômeno isolado do Move Brasil: os SUVs médios usados já vinham encalhando com preço abaixo da Fipe, e a chegada agressiva das marcas chinesas ao 0 km pressiona o seminovo pelo lado de baixo.
Onde sobra valor para quem não é motorista de aplicativo
Se o seminovo está espremido entre o 0 km subsidiado de um lado e o chinês novo do outro, o espaço bom fica no carro mais rodado, aquele que já levou a pancada de desvalorização e agora entrega quilômetro barato. Alguns exemplos com preço de Fipe de agosto de 2026:
- Jeep Compass 2018 a 2020: o Sport 2.0 flex 2019 está em R$ 84.909 e o 2018 em R$ 81.856. É o mesmo SUV médio que o motorista de aplicativo vai financiar em 72 meses, com a diferença de que a maior parte da desvalorização já passou.
- Honda City 2017 a 2019: o sedã EX 2018 está em R$ 78.932 e o 2017 em R$ 72.071. Foi construído para rodar muito, tem rede de peças em qualquer cidade e é dos poucos que o taxista compra e revende sem sustos.
Vale um cuidado extra nos próximos anos: com a frota de aplicativo migrando para híbrido e elétrico chinês, uma parte grande desses carros vai chegar ao usado com rodagem alta e bateria como item mais caro do pacote. Quando isso acontecer, saber se o carro era recarregado em casa vai valer tanto quanto olhar o hodômetro.
Na busca da hoov dá para filtrar por ano e comparar geração por geração, que é como se enxerga onde o preço realmente parou de cair.


