A Caoa Changan Uni-T Infinity custa R$ 174.990. O Honda HR-V Advance custa R$ 203.300. São R$ 28.310 de diferença na tabela, e é com esse número que a conversa começa em qualquer loja. Só que ele é o primeiro número da conta, não o último.
Nos testes da Autoesporte, o chinês fez 8,9 km/l na cidade com gasolina e ar-condicionado ligado. O Honda fez 11,4 km/l. Com a gasolina comum na média nacional de R$ 6,54 o litro, medida pela ANP entre 18 e 24 de outubro de 2026, quem roda 15 mil km por ano só na cidade gasta R$ 11.024 por ano de combustível no Uni-T e R$ 8.607 no HR-V. São R$ 2.418 por ano. Em cinco anos, R$ 12.088.
Quase metade do desconto inicial do chinês fica no posto. Vale entender onde cada um ganha esse dinheiro de volta.
Caoa Changan Uni-T Infinity 2027

O Uni-T é um SUV médio e está na linha de frente da nova onda chinesa: muito equipamento por um preço que até ano passado não comprava nada parecido. Debaixo do capô, um 1.5 turbo flex com injeção direta, 180 cv e 29,2 kgfm, câmbio de dupla embreagem de sete marchas e tração dianteira.
Por dentro, duas telas grandes integradas ao painel, teto panorâmico, bancos elétricos com ventilação e aquecimento, carregador por indução, som de 11 alto-falantes e uma função que movimenta o carro pela chave para sair de vaga apertada. Na segurança, seis airbags, frenagem autônoma de emergência, piloto automático adaptativo, assistente de faixa, câmeras 360 graus e alerta de ponto cego. A garantia é de sete anos.
Os 2,71 m de entre-eixos aparecem onde importa. O banco de trás tem espaço de sobra para as pernas, a cabine tem 1,87 m de largura e o assoalho é quase plano, então quem viaja no meio não fica torto. O porta-malas leva 425 litros.
Nos testes da Autoesporte, foi de 0 a 100 km/h em 8 segundos e parou de 100 a 0 em 40 metros, melhor que o rival nos dois casos.
O preço disso tem duas faces. Ajuste de ar-condicionado, abertura do teto e até regulagem dos retrovisores estão todos na tela, o que transforma tarefa simples em caça ao menu com o carro andando. A suspensão controla bem a carroceria em curva, mas passa as irregularidades do asfalto ruim com mais nitidez do que se espera. E a dianteira baixa e longa raspa com facilidade em rampa de garagem e lombada alta.
Honda HR-V Advance 2027

O HR-V é um SUV compacto, 15 cm mais curto que o chinês, e joga outro jogo: menos efeito imediato, mais consistência no uso. O motor também é um 1.5 turbo flex de injeção direta, com 177 cv e 24,5 kgfm, só que ligado a um câmbio CVT, aquele de variação contínua, sem marchas fixas.
A ficha técnica sugere desvantagem e a pista mostra outra coisa. O Honda é 84 kg mais leve e venceu todas as retomadas do comparativo: de 60 a 100 km/h levou 4,4 segundos, contra 5,1 s do Uni-T. Na arrancada perde, de 0 a 100 km/h em 8,6 segundos, e no pé fundo o CVT sobe o giro e fica lá, com barulho na cabine.
A cabine tem mais plástico e menos sofisticação, painel convencional, botões físicos e nenhum teto solar panorâmico, nem como opcional. A câmera de ré é só de ré, e com resolução discreta. Em troca, a ergonomia é direta: tudo está onde a mão procura e não existe período de adaptação. O Magic Seat continua sendo uma das soluções mais inteligentes da categoria, porque o banco de trás não só rebate como levanta, liberando uma área vertical enorme dentro do carro.
O porta-malas é o ponto fraco objetivo: 354 litros, 71 a menos que o chinês e abaixo de SUVs compactos como Creta e Kicks. A segurança traz os mesmos seis airbags e o pacote Honda Sensing, que inclui farol alto automático e trabalha de forma mais progressiva no dia a dia, sem aquela sensação de disputar o volante. A garantia é de seis anos, e a rede de concessionárias espalhada pelo país é uma vantagem concreta de quem está aqui há décadas.
A conta de cinco anos, com posto, revisão e seguro
Preço de tabela é a primeira parcela. As outras aparecem devagar. O Uni-T é mais barato nas cinco primeiras revisões (R$ 4.758 contra R$ 5.167), na cesta de peças (R$ 15.938 contra R$ 16.825) e no seguro (R$ 2.365 por ano contra R$ 2.717, pelo perfil padrão da Autoesporte). Ganha em todas, mas por margens pequenas. O combustível joga em outra escala.
| Cinco anos, 15 mil km/ano na cidade | Uni-T Infinity | HR-V Advance |
|---|---|---|
| Gasolina | R$ 55.121 | R$ 43.033 |
| Cinco primeiras revisões | R$ 4.758 | R$ 5.167 |
| Seguro | R$ 11.825 | R$ 13.585 |
| Total de uso | R$ 71.704 | R$ 61.785 |
Somando combustível, revisão e seguro, o HR-V sai R$ 9.919 mais barato de usar em cinco anos. Isso derruba a diferença de tabela de R$ 28.310 para cerca de R$ 18.400. E como a Honda passou a dar desconto por causa da pressão chinesa, com o Advance aparecendo em algumas lojas perto de R$ 190 mil, a diferença real pode cair para algo em torno de R$ 5.200 depois de cinco anos de uso.
Agora troque uma variável: 25 mil km por ano, tudo na cidade. Aí o combustível sozinho separa R$ 20.146 em cinco anos, o custo total de uso fica R$ 17.977 a favor do Honda, e a economia do chinês na compra simplesmente desaparece. É a mesma conta, com o seu quilômetro no lugar do quilômetro médio.
O que a Fipe diz sobre desvalorização
Carro de marca nova carrega uma dúvida justa: quanto ele vale depois. A Tabela Fipe de outubro de 2026 dá o primeiro sinal.
O Uni-T aparece com uma entrada única, sem divisão por versão: R$ 169.211 no ano-modelo 2027 e R$ 150.545 no 2026. Entre um ano-modelo e o outro, R$ 18.666, ou 11% do valor. No HR-V Advance o mesmo degrau é de R$ 10.984, de R$ 185.312 para R$ 174.328, ou 5,9%.
É o retrato de um mês, não uma profecia. O Uni-T estreou no Brasil em abril de 2026 e ainda não tem histórico de usado suficiente para um julgamento definitivo. Mas é o dado que existe hoje, e ele aponta para o lado do Honda.
E no usado, o que isso muda
A Fipe de outubro põe o HR-V Advance 2026, de um ano de uso, em R$ 174.328. É R$ 662 abaixo do preço de tabela do Uni-T zero quilômetro. O mesmo dinheiro leva o chinês novo ou o japonês com um ano rodado.
E é exatamente aí que o seminovo não fecha a conta. Pagar por um carro de um ano quase o mesmo que custa um zero quilômetro completo significa abrir mão da garantia cheia, da escolha de cor e versão e do primeiro dono ser você, sem receber desconto nenhum em troca. Com R$ 175 mil na mão, o zero quilômetro faz mais sentido que o usado de um ano.
O usado vira vantagem de verdade quando a depreciação pesada já aconteceu. O HR-V de primeira geração, com o 1.8 aspirado, está na Fipe de outubro a R$ 90.356 no 2018 e R$ 101.719 no 2019 na versão EXL. É pouco mais da metade do preço do Uni-T zero, no mesmo nome, com uma mecânica que a Honda rodou no Brasil por sete anos e que todo mecânico de bairro conhece. Não tem teto panorâmico nem câmera 360, tem porta-malas de SUV compacto e uma conta de manutenção previsível.
Seja qual for o escolhido, veja o carro pessoalmente, leve alguém de confiança para olhar com você e desconfie de quem pede sinal antes de você pisar no pátio.
Qual faz mais sentido pra você
Se você tem R$ 175 mil confortáveis e roda pouco na cidade, o Uni-T entrega mais carro por esse dinheiro, e a conta do posto não chega a apagar a diferença. Se você roda muito, dirige em trânsito todos os dias e valoriza rede de assistência e previsibilidade, o HR-V recupera quase tudo o que perde na tabela.
E se a ideia era gastar menos de verdade, o caminho não é nenhum dos dois zero quilômetro: é o HR-V mais velho, bem cuidado, com a depreciação pesada já paga por outra pessoa.
Achar esse carro é o trabalho chato da história, porque o anúncio bom aparece e some no mesmo fim de semana. Dá para deixar a busca salva na hoov com o alerta ligado e seguir com a sua vida enquanto a gente fica de olho. Qual ano você colocaria no filtro primeiro?


